Timidez é Algo de Deus? O Que a Bíblia Diz Sobre Timidez e Medo

Timidez é Algo de Deus? O Que a Bíblia Diz Sobre Timidez e Medo

Recentemente, durante uma conversa em família, surgiu uma discussão interessante: devemos aceitar a timidez simplesmente como parte de quem somos ou devemos lutar contra ela?

A conversa começou porque algumas pessoas sofrem muito mais com a timidez do que outras.

Não estamos falando apenas daquela vergonha normal ao conhecer alguém ou do frio na barriga antes de falar em público. Estamos falando de uma timidez capaz de impedir uma pessoa de conversar com desconhecidos, tentar falar outro idioma, participar de uma entrevista de emprego, conhecer pessoas novas ou simplesmente expressar aquilo que pensa.

Foi então que surgiu uma pergunta ainda mais profunda:

Se Deus nos criou, será que a timidez também vem de Deus?

A resposta exige cuidado.

Ser uma pessoa reservada não é pecado. Ser introvertido não significa ter pouca fé. Gostar de silêncio, evitar ser o centro das atenções ou preferir conversar com poucas pessoas também não significa que exista algo errado espiritualmente.

Mas existe uma diferença importante entre ter uma personalidade tímida e ser dominado pela timidez.

E talvez seja justamente aí que esteja a questão.

Ser tímido não é o mesmo que ser dominado pela timidez

Praticamente todo mundo experimenta algum grau de timidez em determinadas situações.

Uma pessoa extremamente comunicativa pode ficar tímida diante de alguém que admira. Outra pode conversar tranquilamente com amigos, mas travar completamente quando precisa falar diante de uma plateia.

A timidez, portanto, pode fazer parte da experiência humana.

O problema começa quando ela deixa de ser apenas um sentimento e passa a determinar nossas escolhas.

É quando uma voz interior começa a dizer:

“Não fale.”

“Você vai passar vergonha.”

“Não tente esse emprego.”

“Seu inglês não é bom o suficiente.”

“Não converse com aquela pessoa.”

“Não dê sua opinião.”

“Todos vão reparar nos seus erros.”

“Melhor ficar quieto.”

E, pouco a pouco, oportunidades vão passando.

Relacionamentos que poderiam começar nunca começam.

Portas profissionais que poderiam ser abertas permanecem fechadas.

Dons que poderiam ser utilizados ficam escondidos.

Sonhos são abandonados antes mesmo da primeira tentativa.

Nesse momento, talvez a pergunta já não seja:

“Eu sou tímido?”

Mas:

“Até que ponto minha timidez está governando minha vida?”

Jovem tímida afastada de um grupo de pessoas durante uma conversa.
Imagem: Acervo Frutos do Espírito

Deus não nos criou para vivermos oprimidos pelo medo

Existe um versículo muito conhecido que frequentemente aparece quando falamos sobre medo:

“Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.”
2 Timóteo 1:7

É importante entender corretamente esse texto.

Paulo não está dizendo que uma pessoa cristã precisa ser extrovertida.

Também não está dizendo que sentir vergonha ou insegurança seja pecado.

A questão é outra.

O medo não deveria governar nossas decisões.

Podemos sentir medo e ainda assim avançar.

Podemos sentir vergonha e ainda assim falar.

Podemos sentir insegurança e ainda assim tentar.

Talvez seja exatamente aqui que precisamos separar duas coisas que parecem iguais, mas não são:

timidez e covardia.

Uma pessoa tímida pode ser extremamente corajosa.

E uma pessoa extrovertida pode ser covarde diante de determinadas situações.

Coragem não significa ausência de medo.

Coragem é decidir que o medo não terá a palavra final.

Moisés também tentou fugir

Poucas histórias bíblicas ilustram isso tão bem quanto a história de Moisés.

Imagem: Acervo Frutos do Espírito

Quando Deus o chamou para voltar ao Egito e confrontar Faraó, Moisés não respondeu imediatamente:

“Pode deixar comigo, Senhor!”

Muito pelo contrário.

Sua primeira reação foi questionar sua própria capacidade.

“Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?”
Êxodo 3:11

Depois, Moisés apresenta outra dificuldade:

“Ah! Senhor! Eu nunca fui eloquente […] pois sou pesado de boca e pesado de língua.”
Êxodo 4:10

Moisés estava basicamente dizendo:

“Eu não sou a pessoa certa para isso.”

E finalmente chega ao ponto de pedir:

“Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviar.”
Êxodo 4:13

Em outras palavras:

“Senhor, mande outra pessoa.”

Mas existe algo maravilhoso nessa história.

Deus não respondeu:

“Tudo bem, Moisés. Se você não se sente confortável, Eu procurarei alguém mais confiante.”

Mas também não disse:

“Primeiro deixe de ser inseguro e depois volte aqui.”

A resposta de Deus começou muito antes:

“Certamente eu serei contigo.”
Êxodo 3:12

Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos sobre o assunto.

Moisés não precisou vencer todas as suas inseguranças para começar a obedecer.

Ele precisou aprender a caminhar apesar delas.

Talvez você nunca deixe de sentir aquele frio na barriga

Existe uma ideia perigosa de que precisamos esperar o medo desaparecer para fazer determinadas coisas.

“Quando eu tiver confiança, eu faço.”

“Quando meu inglês estiver perfeito, eu converso.”

“Quando perder a vergonha, eu participo.”

“Quando estiver preparado, tento aquela vaga.”

“Quando me sentir seguro, começo.”

O problema é que esse dia pode nunca chegar.

Muitas vezes, a confiança não aparece antes da ação.

Ela aparece depois de repetirmos a ação várias vezes.

A primeira conversa pode ser desconfortável.

A segunda também.

Na terceira, talvez ainda exista vergonha.

Mas alguma coisa começa a mudar.

Você percebe que errou uma palavra e o mundo não acabou.

Percebe que alguém não entendeu e simplesmente pediu para repetir.

Percebe que uma entrevista que parecia assustadora era apenas uma conversa.

Percebe que as pessoas estão muito menos preocupadas com seus erros do que você imaginava.

E assim vamos crescendo.

Talvez você continue sendo uma pessoa tímida.

Mas já não será uma pessoa controlada pela timidez.

“Mas esse é o meu jeito”

Existe uma frase muito comum:

“Eu sou assim.”

E existe alguma verdade nela.

Cada pessoa possui uma personalidade.

Algumas são naturalmente expansivas. Outras são reservadas.

Algumas gostam de conversar durante horas. Outras precisam de silêncio.

Algumas entram em uma sala e rapidamente começam uma conversa. Outras observam primeiro.

Não precisamos transformar todas as pessoas no mesmo tipo de personalidade.

Mas existe uma pergunta que todo cristão deveria fazer:

Será que tudo aquilo que chamamos de “meu jeito” precisa necessariamente permanecer do mesmo jeito?

O Evangelho não existe para destruir nossa personalidade.

Mas nossa caminhada com Deus envolve transformação.

Todos nós temos áreas que precisam amadurecer.

Para alguém pode ser a impaciência.

Para outro, o orgulho.

Para outro, a dificuldade de perdoar.

Para outro, a insegurança.

E para algumas pessoas, talvez seja aprender a não permitir que a timidez determine seus limites.

Dizer “esse é o meu jeito” pode explicar de onde estamos partindo.

Mas não deveria determinar até onde podemos chegar.

Gideão também se considerava pequeno demais

Quando o anjo do Senhor aparece a Gideão, ele o chama de:

“O Senhor é contigo, homem valente.”
Juízes 6:12

Mas a imagem que Gideão tinha de si mesmo era completamente diferente.

Ele responde:

“A minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai.”
Juízes 6:15

Observe o contraste.

De um lado:

“Homem valente.”

Do outro:

“Eu sou o menor.”

Quantas vezes fazemos exatamente isso?

Deus abre uma possibilidade e imediatamente procuramos razões para explicar por que não somos capazes.

“Não sei falar.”

“Não tenho experiência.”

“Sou muito tímido.”

“Não conheço ninguém.”

“Não consigo.”

“Não sou como aquela pessoa.”

Gideão olhava para aquilo que acreditava ser.

Deus enxergava aquilo que ele ainda poderia se tornar.

A timidez pode roubar oportunidades

Aqui precisamos falar de algo muito prático.

Quando a timidez chega a níveis extremos, ela pode afetar diversas áreas da vida.

Pode impedir alguém de procurar um emprego melhor porque tem medo da entrevista.

Pode impedir uma pessoa que vive em outro país de praticar o idioma porque tem vergonha de errar.

Pode dificultar amizades.

Pode impedir alguém de conhecer uma pessoa com quem poderia construir um relacionamento.

Pode fazer alguém permanecer anos em uma situação ruim simplesmente porque enfrentar uma mudança parece assustador.

Pode até impedir uma pessoa de servir na igreja, compartilhar uma ideia, pedir ajuda ou contar aquilo que está vivendo.

E então acontece algo triste:

a pessoa possui capacidade, mas começa a viver abaixo daquilo que poderia viver porque o medo estabelece seus limites.

É nesse ponto que precisamos reagir.

Não para nos transformarmos em outra pessoa.

Mas para recuperarmos nossa liberdade.

Deus pode usar pessoas tímidas?

Com certeza.

Deus nunca estabeleceu extroversão como requisito para servir a Ele.

A Bíblia está cheia de pessoas com dúvidas, inseguranças, fraquezas e limitações.

Moisés questionou sua capacidade de falar.

Gideão se considerava pequeno.

Jeremias disse:

“Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino.”
Jeremias 1:6

E a resposta de Deus foi:

“Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto te mandar falarás.”
Jeremias 1:7

Perceba um padrão.

Deus não escolhe apenas pessoas que se sentem prontas.

Muitas vezes Ele chama pessoas que enxergam claramente suas próprias limitações.

E então ensina essas pessoas a dependerem Dele.

Não espere deixar de ser tímido para começar

Imagem: Acervo Frutos do Espírito

Talvez você esteja lendo este artigo e pensando:

“Tudo isso parece bonito, mas eu realmente sou muito tímido.”

Então comece pequeno.

Você não precisa subir em um palco amanhã.

Talvez sua primeira vitória seja simplesmente olhar para alguém e dizer:

“Bom dia.”

Talvez seja fazer uma pergunta.

Talvez seja atender uma ligação que normalmente evitaria.

Talvez seja conversar durante dois minutos no idioma que você está aprendendo.

Talvez seja mandar seu currículo para aquela vaga.

Talvez seja levantar a mão durante uma aula.

Talvez seja iniciar uma conversa.

Para outra pessoa, isso pode parecer insignificante.

Para você, pode representar uma grande vitória.

E está tudo bem.

Não compare sua batalha com a facilidade de outra pessoa.

Uma pessoa tímida pode ser mais corajosa do que parece

Imagine duas pessoas diante de uma plateia.

A primeira ama falar em público. Ela sobe ao palco, pega o microfone e conversa naturalmente.

A segunda sente as mãos suarem. O coração acelera. Ela pensa em desistir várias vezes.

Mesmo assim, sobe ao palco.

Qual das duas demonstrou mais coragem?

Talvez a segunda.

Porque coragem não pode ser medida apenas pelo tamanho da ação.

Precisamos considerar o tamanho do medo que aquela pessoa precisou enfrentar para realizá-la.

Por isso nunca devemos ridicularizar alguém por sua timidez.

Frases como:

“Deixa de frescura.”

“É só falar.”

“Por que você é assim?”

raramente ajudam.

Para quem observa de fora pode parecer simples.

Para quem está enfrentando aquela batalha interior, não é.

Encorajamento funciona muito melhor do que humilhação.

Então, timidez é algo de Deus?

Talvez agora possamos responder à pergunta inicial.

Uma personalidade reservada não é um defeito espiritual.

Deus não exige que todas as pessoas sejam expansivas, falantes ou confortáveis diante de multidões.

Portanto, não seria correto afirmar que simplesmente ser tímido significa estar fora da vontade de Deus.

Mas também não devemos romantizar uma timidez que se transforma em prisão.

Quando o medo começa a controlar nossas decisões, impedir nosso crescimento, silenciar nossa voz e determinar aquilo que acreditamos ser capazes de fazer, precisamos enfrentá-lo.

Não porque Deus queira transformar todos os tímidos em extrovertidos.

Mas porque Deus não nos chamou para sermos escravos do medo.

Talvez a pergunta correta não seja:

“Deus quer que eu deixe de ser tímido?”

Talvez seja:

“Minha timidez está me impedindo de fazer aquilo que eu deveria fazer?”

Se a resposta for sim, existe uma batalha que vale a pena enfrentar.

Deus não precisa mudar sua personalidade para mudar seus limites

Imagem: Acervo Frutos do Espírito

Você pode continuar sendo reservado.

Pode continuar preferindo ouvir a falar.

Pode continuar sentindo aquele frio na barriga antes de uma conversa importante.

Pode continuar não gostando de ser o centro das atenções.

Mas isso não significa que precisa continuar dizendo “não consigo” para tudo aquilo que provoca medo.

Talvez amanhã você ainda sinta vergonha.

Mas fale mesmo assim.

Talvez ainda tenha sotaque.

Converse mesmo assim.

Talvez esteja nervoso durante a entrevista.

Faça a entrevista mesmo assim.

Talvez tenha medo de conhecer alguém.

Diga “oi” mesmo assim.

Talvez sua voz trema.

Use-a mesmo assim.

Porque algumas das maiores mudanças da nossa vida começam quando percebemos que não precisamos esperar o medo desaparecer para dar o primeiro passo.

Deus disse a Moisés:

“Certamente eu serei contigo.”

Talvez seja disso que uma pessoa tímida mais precise se lembrar.

Não:

“Eu não tenho medo.”

Mas:

“Eu tenho medo, mas não caminharei sozinho.”

Para refletir

Existe alguma oportunidade que você deixou passar por causa da timidez?

Alguma conversa que nunca iniciou?

Algum sonho que abandonou antes de tentar?

Alguma porta diante da qual você parou porque pensou: “Eu não consigo fazer isso”?

Talvez você não precise mudar completamente sua personalidade.

Talvez precise apenas dar um pequeno passo que o medo vem impedindo há muito tempo.

Deus não precisa transformar você em outra pessoa para começar a transformar seus limites.


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