O cristão deve se afastar da política por causa da corrupção ou participar com consciência para não deixar o poder somente nas mãos dos maus?
Hoje, quando dizemos que alguém “é político”, muitas pessoas não imaginam um cidadão preparado para dialogar, administrar conflitos e procurar soluções. Imaginam imediatamente alguém mentiroso, interesseiro, manipulador ou corrupto.
A corrupção deformou tanto o significado da palavra política que ela passou a ser tratada quase como um sinônimo de desonestidade.
Por causa disso, muitos cristãos afirmam que não querem saber de política. Alguns dizem que “todo político é ladrão”, que a política é suja e que um verdadeiro servo de Deus não deveria se envolver com esse assunto.
Mas será que esse pensamento está de acordo com a Palavra de Deus?
Se todas as pessoas honestas abandonarem a política por considerá-la corrupta, quem ocupará os cargos públicos? Quem ajudará a criar as leis? Quem fiscalizará a utilização do dinheiro público? Quem defenderá as famílias, os mais vulneráveis e a liberdade de professarmos nossa fé?
Quando os íntegros se afastam, os corruptos não fazem o mesmo. Pelo contrário: eles encontram ainda mais espaço para utilizar o poder em benefício próprio.
Quando o cristão diz que não quer saber de política, a política não deixa de existir. Ela apenas continua sendo feita sem a sua participação.
O que realmente significa política?
Política é a maneira como uma sociedade organiza sua vida coletiva, administra o poder e toma decisões sobre aquilo que pertence a todos.
É por meio da política que são discutidos assuntos como saúde, educação, segurança, impostos, moradia, trabalho, liberdade religiosa, proteção das crianças, combate à pobreza e utilização dos recursos públicos.
A política também envolve diálogo, negociação, administração de conflitos e busca por soluções para os problemas da comunidade.

Portanto, política não é apenas disputar eleições, apoiar candidatos ou pertencer a um partido. Ela está presente sempre que pessoas se reúnem para decidir como viverão em sociedade.
Quando uma comunidade cobra melhorias para seu bairro, existe participação política. Quando cidadãos fiscalizam a utilização do dinheiro público, estão participando da política. Quando alguém defende uma lei, denuncia uma injustiça ou cobra seus representantes, também está exercendo sua cidadania política.
Até mesmo a decisão de não participar possui consequências, porque outras pessoas continuarão tomando decisões que afetarão a nossa vida.
Política e corrupção não são a mesma coisa
A política é uma ferramenta. Ela pode ser utilizada para servir à população ou para explorar a população.
A corrupção acontece quando alguém utiliza o poder, a influência ou os recursos públicos para obter vantagens pessoais. Portanto, a corrupção não é a política em si, mas a utilização desonesta da política.
Um profissional desonesto não torna toda profissão desonesta. Um comerciante que engana seus clientes não transforma todo comércio em roubo. Da mesma maneira, a existência de políticos corruptos não significa que toda atividade política seja necessariamente corrupta.
O ladrão que entra na política não se torna ladrão simplesmente porque virou político. Ele utiliza o poder político para manifestar e ampliar a desonestidade que já existia em seu caráter.
A política não é suja por natureza. Ela se torna suja quando pessoas sem caráter usam o poder para beneficiar a si mesmas.

Abandonar a política por causa da corrupção não faz a corrupção desaparecer. Pode, na verdade, deixar o caminho ainda mais livre para os corruptos.
A Bíblia não apresenta uma fé isolada da sociedade
A Bíblia não utiliza a palavra “política” exatamente da maneira como a utilizamos hoje. Mesmo assim, ela apresenta homens e mulheres de Deus envolvidos em governos, decisões públicas, administração de recursos e defesa do povo.
José foi colocado em uma posição de grande autoridade no Egito. Ele administrou recursos, organizou a distribuição de alimentos e ajudou a preservar muitas vidas durante um período de fome.
Daniel serviu em governos que não compartilhavam sua fé. Mesmo vivendo em um ambiente pagão, permaneceu fiel a Deus e exerceu suas responsabilidades com tamanha integridade que seus adversários não conseguiam encontrar corrupção em sua conduta:
“Então os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa.”
— Daniel 6:4

Ester utilizou sua posição no palácio para interceder por seu povo, mesmo sabendo que isso poderia colocar sua própria vida em risco.
Neemias serviu ao rei e posteriormente exerceu a função de governador. Sua fé não o impediu de administrar, planejar, organizar trabalhadores, enfrentar opositores e reconstruir os muros de Jerusalém.
Débora foi profetisa e juíza em Israel. Ela ouvia as causas do povo e exerceu liderança em um período difícil da história da nação.
Essas pessoas não viveram em ambientes perfeitos. Algumas serviram dentro de governos pagãos, cercadas por interesses, disputas e injustiças. Ainda assim, não utilizaram os problemas do sistema como desculpa para abandonar sua responsabilidade.
Elas permaneceram onde estavam e procuraram servir com fidelidade.
O cristão pode participar da política?
O cristão não apenas pode participar da vida política como também deveria compreender que possui responsabilidade sobre a sociedade em que vive.
Isso não significa que todos precisam se candidatar a cargos públicos ou filiar-se a partidos. Existem diferentes formas de participação.
O cristão participa politicamente quando vota com consciência, pesquisa a vida dos candidatos, acompanha seus mandatos, fiscaliza o dinheiro público, cobra promessas, denuncia abusos, defende os necessitados e não permite que sua fé seja usada para justificar corrupção.
Alguns cristãos também podem sentir vocação para ocupar cargos públicos. Se isso acontecer, não deveriam entrar na política para conquistar fama, enriquecer, dominar pessoas ou favorecer amigos. Deveriam entrar com o propósito de servir.
Jesus ensinou:
“Quem quiser tornar-se grande entre vocês, será esse o que os sirva.”
— Marcos 10:43
Esse princípio deveria estar presente na vida de toda pessoa que deseja exercer autoridade. Quanto maior o poder recebido, maior deve ser a disposição de servir.
A política precisa de homens e mulheres que compreendam que o cargo público não pertence a eles. O poder é temporário, e os recursos administrados pertencem à população.
Ser cristão não transforma automaticamente alguém em bom político
É necessário fazer um alerta importante: apenas dizer que é cristão não transforma ninguém automaticamente em uma pessoa honesta ou preparada para governar.
Jesus ensinou que uma árvore é conhecida pelos seus frutos. Por isso, não devemos avaliar um candidato apenas porque ele menciona Deus, segura uma Bíblia, visita igrejas ou utiliza palavras que agradam ao público cristão.
Precisamos observar sua conduta, sua história, suas propostas e seus frutos.
Ele é honesto? Cumpre o que promete? Trata as pessoas com dignidade? Utiliza a fé para servir ou apenas para conquistar votos? Respeita a verdade? Aceita ser fiscalizado? Como administra o dinheiro público? Qual é sua postura quando recebe poder?
Um discurso religioso pode esconder um coração dominado pela ambição.
O cristão não deve votar em alguém apenas porque essa pessoa se apresenta como “irmão”. Também não deve rejeitar automaticamente toda pessoa que não compartilha de sua religião. É necessário examinar caráter, competência, propostas e compromisso com o bem comum.
A fé verdadeira precisa ser demonstrada por meio de atitudes.
Participação política não é idolatria política
Existe uma grande diferença entre participar da política e transformar a política em religião.
O cristão pode apoiar um candidato, mas não deve tratá-lo como salvador. Pode concordar com um partido em determinados assuntos, mas não deve colocar o partido acima da verdade. Pode defender uma proposta, mas deve conservar a liberdade de reconhecer erros e mudar de opinião.
A idolatria política começa quando passamos a justificar em nosso grupo aquilo que condenamos no grupo adversário.
Se a corrupção é errada, deve ser errada independentemente de quem a pratique. Se a mentira é pecado, não se torna aceitável porque foi contada pelo nosso candidato preferido. Se o abuso de poder é condenável, não deve ser celebrado apenas porque prejudicou alguém de quem não gostamos.
Nossa esperança definitiva não pode ser colocada em presidentes, governadores, ministros, prefeitos ou parlamentares.
Somente Cristo é o Salvador.
Isso, porém, não elimina nossa responsabilidade como cidadãos. Confiar em Deus não significa abandonar as decisões da sociedade. Significa participar sem permitir que a política ocupe o lugar que pertence ao Senhor.
A omissão também é uma escolha
Algumas pessoas acreditam que, ao se afastarem completamente da política, permanecerão neutras. Mas a omissão também produz consequências.
Se pessoas honestas não votam com consciência, outras escolhem por elas. Se os cidadãos não fiscalizam, aumenta a liberdade daqueles que desejam utilizar recursos públicos de maneira desonesta. Se pessoas de bom caráter se recusam a ocupar espaços de liderança, esses espaços continuam disponíveis para quem busca apenas poder e vantagens.

Não participar não significa deixar de ser governado.
As leis continuarão sendo criadas. Os impostos continuarão sendo cobrados. O dinheiro público continuará sendo gasto. Decisões sobre educação, saúde, segurança e liberdade continuarão sendo tomadas.
A única diferença é que essas decisões acontecerão sem a nossa participação.
A omissão dos íntegros não impede a atuação dos corruptos; apenas reduz a resistência que eles encontrarão.
O cristão não deve viver obcecado pela política, mas também não deveria tratá-la como se não tivesse relação com sua fé e com a vida do próximo.
Buscar o bem da cidade também é um princípio bíblico
Quando o povo de Israel estava no exílio na Babilônia, Deus transmitiu uma orientação por meio do profeta Jeremias:
“Procurem a paz da cidade para onde eu os deportei e orem por ela ao Senhor; porque na sua paz vocês terão paz.”
— Jeremias 29:7
Mesmo vivendo em uma terra estrangeira e sob um governo que não representava sua fé, o povo foi orientado a buscar o bem da cidade.
Esse princípio nos ensina que o servo de Deus não deve pensar somente em sua vida particular. Devemos nos importar com o lugar onde vivemos e com as pessoas que compartilham essa sociedade conosco.
Buscar o bem da cidade significa desejar escolas melhores, hospitais que atendam com dignidade, ruas seguras, justiça imparcial, proteção aos vulneráveis e governantes honestos.
A preocupação política do cristão não deveria existir apenas para proteger seus próprios interesses. Ela deve incluir a viúva, o órfão, o estrangeiro, o pobre, a criança e todos aqueles que podem ser esquecidos pelos poderosos.
Devemos orar por quem governa
Além de participar com consciência, o cristão também deve orar pelas autoridades.
Paulo escreveu:
“Antes de tudo, recomendo que sejam feitas súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas, em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade.”
— 1 Timóteo 2:1-2

A orientação não diz para orarmos apenas pelas autoridades das quais gostamos. Devemos interceder por todos os que exercem poder.
Orar por um governante não significa concordar com tudo o que ele faz. Significa pedir que Deus lhe conceda sabedoria, que impeça decisões injustas, que exponha a corrupção e que utilize as autoridades para promover a paz e proteger a população.
Também devemos orar para que homens e mulheres íntegros tenham coragem de participar da vida pública sem vender sua consciência.
A política precisa de pessoas que não aceitem suborno, que não utilizem mentiras para conquistar poder e que estejam dispostas a perder uma eleição antes de perder o caráter.
Como o cristão pode participar sem perder sua fé?
O cristão pode começar com atitudes simples e responsáveis:

- estudar antes de formar uma opinião;
- verificar informações antes de compartilhá-las;
- conhecer os candidatos e sua trajetória;
- analisar propostas, não apenas discursos;
- votar com consciência;
- acompanhar o trabalho dos eleitos;
- cobrar transparência e prestação de contas;
- denunciar injustiças e corrupção;
- conversar com respeito com quem pensa diferente;
- orar pelas autoridades;
- não colocar nenhum político acima da verdade;
- reconhecer o acerto de um adversário e o erro de um aliado.
A participação cristã deveria ser marcada pelo discernimento, e não pelo fanatismo; pela verdade, e não pelas notícias falsas; pela firmeza, e não pelo ódio.
Não precisamos destruir amizades ou tratar pessoas como inimigas porque possuem opiniões diferentes. A política deveria ser um espaço de diálogo e busca por soluções, não uma autorização para desprezar o próximo.
A política precisa de pessoas íntegras
Muitas pessoas dizem que os bons não deveriam entrar na política porque ela é suja. Mas talvez seja justamente por isso que pessoas de caráter sejam tão necessárias nela.
A escuridão não diminui quando aqueles que possuem luz decidem se afastar.
A política não ficará mais honesta se todas as pessoas honestas a abandonarem. Não teremos melhores representantes se tratarmos todo envolvimento político como pecado. Também não combateremos a corrupção entregando o poder sem resistência aos que pretendem se beneficiar dele.

Isso não significa que todo cristão deva candidatar-se. Significa que nenhum cristão deveria utilizar a existência de corruptos como justificativa para abandonar completamente sua responsabilidade social.
Precisamos de cidadãos conscientes, eleitores responsáveis, fiscalizadores atentos e também de homens e mulheres íntegros dispostos a servir na vida pública.
Nossa esperança está em Cristo, mas nossa responsabilidade permanece
Nenhum político salvará uma nação de todos os seus problemas. Nenhum partido representa perfeitamente o Reino de Deus. Nenhum governo humano será completamente justo.
Nossa esperança está em Cristo.
Entretanto, esperar em Deus não significa cruzar os braços. A fé bíblica não é uma desculpa para a omissão. Ela deve produzir responsabilidade, coragem, honestidade e amor pelo próximo.
Enquanto estivermos nesta terra, as decisões políticas continuarão afetando famílias, igrejas, trabalhadores, crianças e idosos. Por isso, não podemos tratar esse assunto com desprezo.
Não devemos idolatrar políticos, mas precisamos avaliar aqueles que recebem poder. Não devemos transformar a igreja em palanque, mas precisamos ensinar princípios como verdade, justiça, honestidade e serviço. Não devemos confundir o Evangelho com um partido, mas também não devemos permitir que o medo da política nos torne indiferentes ao futuro da sociedade.
Quando homens e mulheres íntegros participam, fiscalizam e se posicionam, os maus encontram limites. Quando os bons se omitem, aqueles que não possuem compromisso com a verdade encontram menos resistência.
A política não precisa de menos pessoas honestas. Precisa de mais.
Precisa de pessoas que compreendam que autoridade é responsabilidade, que dinheiro público não possui dono particular e que governar é servir.
Portanto, o cristão não deve colocar sua esperança na política, mas também não deve abandoná-la nas mãos dos corruptos.
Quando não participamos da política, não deixamos de ser governados. Apenas permitimos que outros decidam quem nos governará e quais princípios orientarão a nossa sociedade.
Que Deus levante homens e mulheres íntegros, sábios e corajosos. Que conceda discernimento aos eleitores e temor àqueles que exercem autoridade. E que nós jamais utilizemos a corrupção dos maus como desculpa para a omissão dos bons.

