Existem momentos em nossa vida em que Deus não muda toda a situação de uma vez. Os problemas continuam ali, as contas continuam chegando e ainda não conseguimos enxergar claramente como tudo vai terminar.
Mas, de alguma maneira, Ele nos mostra:
“Eu sei onde você está. Continue.”
Eu vivi um desses momentos no início de 2020.
E Deus usou algo tão simples quanto um botijão de gás para me mostrar que eu não estava sozinho.
Quando o dinheiro simplesmente parou de entrar
Naquela época, eu tinha um escritório de projetos de engenharia na cidade de Sorriso, no Mato Grosso.
Quem conhece a região sabe que o início do ano costumava ser um período mais tranquilo para esse tipo de trabalho. O movimento diminuía e, consequentemente, o dinheiro também demorava mais para entrar.
Naquele ano, porém, a situação começou a ficar realmente difícil.
O dinheiro não entrava.
As reservas que tínhamos foram acabando.
No escritório trabalhávamos eu, meu filho Jonathan e minha esposa.
Mas a situação já estava afetando cada um de nós de uma maneira diferente. Minha esposa estava tão abatida com tudo o que estava acontecendo que chegou a um ponto em que já não conseguia encontrar forças nem para ir trabalhar no escritório.
Eu, por outro lado, continuava tentando acreditar que aquilo seria apenas uma fase.
Pensava:
“Vamos continuar trabalhando. Daqui a pouco entra um projeto bom e a gente passa por isso.”
Só que o projeto não vinha.
E a situação continuava apertando.

Primeiro acabou o gás na casa do meu filho
Chegou um momento em que o gás acabou na casa do Jonathan.
Como ele não tinha dinheiro para comprar outro botijão, começou a fazer as refeições na nossa casa.
Até que aconteceu o que ninguém queria.
O nosso gás também acabou.
Agora havia duas casas sem gás e nenhum dinheiro entrando para comprar outro.
Ainda tínhamos alguns trocados e começamos a nos virar como podíamos.
No escritório havia uma chaleira elétrica que tínhamos comprado numa época em que as coisas estavam melhores.
Então comprávamos pão no mercado, esquentávamos água na chaleira, fazíamos café e comíamos pão.
Café da manhã.
Almoço.
Jantar.
Era assim que estávamos passando aqueles dias.
O escritório ficava a aproximadamente um quarteirão da minha casa, então acabamos concentrando nossa rotina ali.
E eu continuava pensando:
“Já, já entra um projeto. Essa fase vai passar.”
Mas a situação apertou ainda mais.
Até que chegou o momento em que o dinheiro para comprar o pão também estava acabando.

Uma ligação do pastor
Em uma segunda-feira, recebi uma ligação do Pr. André Junger, pastor líder da Comunidade das Nações, igreja onde congregávamos em Sorriso.
Ele me disse:
“Sérgio, preciso falar com seu filho. Fala para ele vir aqui na igreja porque eu preciso conversar com ele.”
Jonathan estava comigo no escritório.
Eu desliguei e disse:
“Filho, o Pr. André pediu para você ir até a igreja. Ele quer conversar com você.”
Nós imaginamos que provavelmente fosse alguma coisa relacionada ao grupo de louvor. Algum tempo antes, o pastor havia perguntado se Jonathan tocava algum instrumento.
Então ele foi até a igreja.
Eu fiquei no escritório.
“Está tudo bem.”
Quando Jonathan chegou, o Pr. André começou a conversar com ele.
Perguntou:
“E aí, Jonathan, como estão as coisas? Como você está?”
Mesmo sem gás em casa, sem dinheiro e sabendo de toda a situação que estávamos vivendo, meu filho respondeu como muitas vezes fazemos quando alguém pergunta se está tudo bem:

“Está tudo bem, pastor. Tudo tranquilo. Tudo de boa.”
O pastor então olhou nos olhos dele.
E fez uma pergunta.
Uma pergunta que Jonathan não estava esperando.
“E o gás?”
Naquele momento, meu filho ficou sem chão.
Porque não havia como escapar daquela pergunta.
Ele contou a verdade.
Disse que o gás da casa dele tinha acabado, então começou a comer na nossa casa.
Depois o gás da nossa casa também acabou.
E agora estávamos nos virando no escritório, fazendo café numa chaleira elétrica e comendo pão.
Quando ouviu aquilo, o Pr. André pegou o telefone, ligou para o fornecedor de gás que conhecia e mandou entregar dois botijões na nossa casa.
“Pai, por que você contou para o pastor?”
Quando Jonathan saiu da igreja, ele me ligou.
E estava incomodado.
Disse mais ou menos assim:
“Pai, por que você fica contando essas coisas para os outros? A gente está passando por uma fase ruim, mas isso vai passar. Não precisava falar para ninguém. Eu cheguei aqui e o pastor já perguntou logo do gás.”
Eu fiquei sem entender.
E respondi:
“Meu filho, eu nunca falei do gás para o pastor.”
Nunca.
Eu não tinha contado que estávamos sem gás.
Não tinha contado que estávamos fazendo café no escritório.
Não tinha contado que estávamos praticamente sem dinheiro para comprar pão.
Jonathan então me explicou:
“Ele olhou dentro dos meus olhos e perguntou: ‘E o gás?’ Eu achei que você tivesse falado alguma coisa para ele.”
Mas eu não tinha falado.
Quando desliguei o telefone, fiquei pensando naquilo.

“A que ponto eu cheguei?”
Talvez uma das coisas mais difíceis daquele período não fosse simplesmente estar sem gás.
Era não conseguir entender como a minha vida tinha mudado tanto em tão pouco tempo.
Pouco tempo antes, minha realidade era completamente diferente.
Eu vinha de uma fase muito boa profissionalmente. Tinha conseguido bons trabalhos, ganhado dinheiro, comprado carros bons e vivido um período em que jamais imaginaria que, pouco tempo depois, estaria fazendo contas para conseguir comprar pão.
Então vieram os problemas.
Levei calote.
Precisei abrir mão dos carros para conseguir resolver compromissos financeiros.
Outras contas apareceram.
O dinheiro parou de entrar.
E, de repente, o gás acabou na casa do Jonathan.
Depois acabou na minha.
E nós simplesmente não tínhamos dinheiro para comprar outro botijão.
Aquilo me fazia extremamente mal.
Eu olhava para a situação e não conseguia entender como, em tão pouco tempo, as coisas tinham chegado àquele ponto.
Não era apenas:
“Estamos sem gás.”
Dentro de mim havia outra pergunta:
“Como foi que eu cheguei até aqui?”
Como alguém que pouco tempo antes tinha um escritório de engenharia funcionando, bons trabalhos, carros e uma vida financeira completamente diferente agora não conseguia comprar um botijão de gás para dentro da própria casa?
Era difícil aceitar.
O botijão vazio havia se tornado quase um retrato de tudo o que estava acontecendo com a nossa vida.
Por isso, quando Jonathan me contou que o Pr. André Junger havia providenciado os dois botijões, confesso que meu primeiro sentimento não foi apenas de alegria ou alívio.
Meu coração também quis ficar triste.
Veio aquele pensamento:
“Meu Deus… a que ponto eu cheguei?”

Depois de tudo que eu já tinha conquistado, agora eu dependia da ajuda de alguém para colocar gás dentro da minha casa.
Naquele momento, meu orgulho também doía.
Mas foi justamente quando eu estava olhando para aquele botijão como um símbolo de tudo o que havia dado errado que Deus começou a me mostrar outra maneira de enxergá-lo.
O gás não precisava representar apenas aquilo que eu havia perdido.
Também podia representar que, mesmo quando eu já não sabia como prover algo tão básico para minha família, Deus sabia exatamente do que nós precisávamos.
Foi então que algo mudou dentro de mim.
“Eu estou com você.”
Naquele momento, senti Deus colocando algo muito forte no meu coração:
“Eu estou com você.”
E aquilo, para mim, significava:
“Não se preocupe. Continue trabalhando. Continue remando. Eu vou providenciando aquilo de que você precisa.”
Os problemas não desapareceram naquele dia.
Minha situação financeira não foi resolvida instantaneamente.
Nenhum grande contrato apareceu milagrosamente naquele momento.
Mas aconteceu algo talvez ainda mais importante:
meu coração se acalmou.
Eu tinha várias decisões que precisava tomar naquela fase da minha vida e estava protelando algumas delas.
O episódio do gás me fez entender que eu precisava tomar aquelas decisões.
Porque, se Deus estava comigo, eu poderia seguir em frente.
Eu não sabia como tinha chegado tão rapidamente àquela situação.
Mas passei a entender que, mesmo ali, Deus sabia exatamente onde eu estava.
E se Ele sabia até do gás que estava faltando dentro da minha casa, eu poderia encontrar forças para continuar.
Eu provavelmente teria negado
Existe um detalhe dessa história que, olhando hoje, considero muito importante.
Se o Pr. André Junger tivesse me chamado e perguntado diretamente:
“Sérgio, como estão as coisas?”
Provavelmente eu teria respondido:
“Está tudo bem.”
Eu estava orgulhoso demais para admitir que não tinha dinheiro nem para comprar gás.
Não teria coragem de dizer:
“Pastor, a coisa está feia. O gás acabou. A comida está acabando. Até o dinheiro do pão está terminando.”
Talvez por isso aquela conversa não tenha acontecido comigo.
Aconteceu com meu filho.
E quando Jonathan tentou dizer que estava tudo bem, o pastor não perguntou se estava faltando dinheiro.
Não perguntou sobre o escritório.
Não perguntou sobre as contas.
Ele olhou nos olhos dele e perguntou:
“E o gás?”
Era exatamente o que estava faltando.
Deus usou pessoas naquele período
Tenho muita gratidão pela vida do Pr. André Junger e também do Pr. Gilberto, que esteve muito presente naquele período.
O Pr. Gilberto ia à minha casa, conversava comigo e me apoiava.
Eles me ajudaram muito mais do que talvez imaginem.
Eu estava vivendo um período emocionalmente muito difícil.
Pouco antes do episódio do gás, havia chegado a um ponto de tamanho desespero que pensamentos muito ruins passaram pela minha cabeça.
Eu estava cansado.
As coisas não davam certo.
Eu não conseguia enxergar a saída.
Mas aquele episódio trouxe paz ao meu coração.
Não porque dois botijões de gás resolveriam todos os meus problemas.
Mas porque aconteceu algo que, para mim, era impossível ignorar:
eu não tinha contado para o pastor.
Mesmo assim, ele chamou Jonathan.
Meu filho tentou dizer que estava tudo bem.
E ele perguntou exatamente:
“E o gás?”
Foi ali que eu entendi:
Deus sabia.
Às vezes precisamos aceitar ajuda
Existe outra lição que carrego dessa experiência.
Se você estiver passando por um momento difícil, peça ajuda.
Não faça como eu fiz.
Talvez a situação nem precisasse ter chegado àquele ponto.
Mas eu estava cheio de orgulho.
Tinha vergonha de admitir que precisava de ajuda.
Às vezes pensamos que fé significa conseguir suportar tudo sozinho.
Não significa.
Deus também coloca pessoas em nosso caminho.
Às vezes a resposta à nossa oração vem através de alguém que telefona.
De alguém que aparece na nossa casa.
De um amigo.
De um pastor.
De alguém que simplesmente percebe que alguma coisa não está bem.
Continue remando
Tenho um amigo, o Pr. Ilson, que sempre me dizia algo que nunca esqueci:
“Irmão Sérgio, temos que remar. A gente não pode parar. Tem que continuar remando até as coisas darem certo.”
Já repeti esse conselho para muitas pessoas.
Porque, quando estamos passando por uma fase difícil, existe uma tendência de pararmos.
Ficamos travados.
Não sabemos para onde ir.
Perdemos a vontade de tentar novamente.
Mas é justamente nessa hora que precisamos continuar remando.
Buscar ajuda.
Buscar uma saída.
E, acima de tudo, continuar buscando a Deus.
Talvez hoje seja o seu “gás”
Para algumas pessoas, dois botijões de gás podem parecer pouca coisa.
Para mim, naquele dia, representaram muito mais.
Representaram uma mensagem:
“Eu sei exatamente o que você está vivendo.”
Talvez você esteja lendo este testemunho enquanto enfrenta seu próprio momento difícil.
Talvez não seja gás.
Pode ser uma conta.
Um emprego que não aparece.
Uma porta que se fechou.
Uma família enfrentando dificuldades.
Uma decisão que você sabe que precisa tomar, mas ainda não teve coragem.
Ou talvez seja simplesmente o cansaço de continuar tentando e não enxergar resultado.
Eu não posso prometer como ou quando sua situação será resolvida.
Mas posso contar aquilo que aconteceu comigo.
Quando eu estava tentando esconder de todo mundo o tamanho da minha dificuldade, Deus usou alguém para tocar exatamente no ponto que eu estava escondendo.

“E o gás?”
Foi uma pergunta simples.
Mas mudou alguma coisa dentro de mim.
Naquele dia, os meus problemas continuaram existindo.
Mas eu voltei a acreditar que conseguiria continuar.
Seu testemunho também pode fortalecer alguém
É justamente por histórias como essa que nasceu este espaço no Frutos do Espírito.
Muitas vezes pensamos que nosso testemunho é simples demais para ser contado.
Talvez alguém pense:
“É só uma história sobre dois botijões de gás.”
Para mim, nunca foram apenas dois botijões.
Foi um dos momentos em que mais claramente senti Deus dizendo:
“Eu estou com você. Continue remando.”
Se Deus também fez algo na sua vida — algo grande ou aparentemente pequeno — considere compartilhar sua história.
Aquilo que hoje é apenas uma lembrança daquilo que você viveu pode ser exatamente a mensagem que outra pessoa precisa encontrar para conseguir continuar.
Porque uma bênção não termina necessariamente quando chega até nós. Ela também pode produzir frutos quando é compartilhada.

